Você diz algo do gênero "Ok, eu sei o que você quer dizer. Entendi.", mas na verdade sabe que estava prestando atenção ao movimento dos carros e ônibus da avenida mais próxima. Você não quer saber do interlocutor, mas depende dele. Afinal de contas, você não existe sem público, não é mesmo? Porquê você ainda "produz arte". No final das contas nada significa nada quando se está vivo. O gênio incompreendido em vida, o recluso sem explicação, a vida sem rotação. Eu poderia dizer inúmeras frases potentes sem autor, pra me provar alguém melhor, mais inteligente, que entende a humanidade, aquela sedenta por comunicação, o universo que se rebaixe diante da minha inteligência insuperável. Que inteligência, eu diria? Eu responderia com três pontos.
A chuva demarca o movimento que nós fazemos todos os dias, o desenho das rodas na rua, as pegadas dos transeuntes que precisam andar até o destino depois de tanto sentar no metrô ou na rua. Eu não sei quantas pegadas eu deixei por aí, mas sei que alguém por aí as observou e pensou que eu não valho tanta coisa assim. Nada como a individualidade presente...Mas ao mesmo tempo sei que eu gosto da incerteza da indentidade. Eu não sou aquele que o cara imaginou que eu fosse quando fitou minhas pegadas. Pois cada pegada carrega consigo o pensamento de cada frame de raciocínio ou projeto de pensamento.
Dinheiro, futuro, ambição, o que sou?
Frames por segundo passam e repassam, indo e voltando, assim como a memória que determina que não somos mais os mesmos apenas pelo fato de que o tempo é corrido, sempre a frente. Correndo, correndo, descontruindo, destruindo, reformando, construção.
A gente se acostuma com o que têm. Queremos mais, porque nunca é o suficiente. Fomos criados assim, acreditando que nunca chegaremos ao final, nada é finito afinal. Entendo, mas não aceito e por isso minha atenção é displicente. Porque me concentrar no que fala? Eu sou apenas desenho revelado pela chuva. Eu caminho, identificado apenas pelas minhas pegadas. Eu preciso de você pra decifrar o que deixei por aí, mas não o que sou de verdade. Porque ninguém é nada de verdade. Somos apenas desejos flutuantes. Viu minha pegada por aí, tão hesitante?
sábado, 2 de junho de 2012
terça-feira, 8 de maio de 2012
Juntando clichês
Eu nunca fui muito de descontrolar. E se fosse, acontecia internamente, como aconteceu aquela vez. Eu com um sorriso estampado no rosto no meio de uma festa meio agitada. Eu seguro o copo de cerveja na mão, daqueles vermelhos por fora, tentando bancar o americano de filme adolescente. Mas sem o beer pong, sem grana. "Classe média sofre" diriam os supostos mememakers.
Vejo uma briga a uns 30 passos de mim, duas mulheres atacando o que há de mais frágil e aparente em sua existência, cabelos. Tomo o cabelo "comum", aquele facilmente pegável, ignorando a existência do corte channel e me concentrando na concentração de cabelos que chega, no mínimo, aos ombros delicados das moças. Problema seu. Gritam, bufam, nada inteligível. Também não precisa, o corpo feminino tomado pela raiva das brabas. A morena e a quase morena.
- Será que o dono da festa não pode resolver isso logo? - Meu amigo comenta ali, do meu lado direito - Elas tão do lado do último galão de cerveja.
- Copo vazio? - pergunto de idiota.
- O que mais poderia ser? Eu cansei de tentar arranjar briga boa. Só sobrou a cerveja. E mulher...
- ...só briga.- Completei. - Ou bate o carro pra chamar a atenção.
O gramado verdejante da mansão, palco da festa, bebe a cerveja que cai dos copos mais alcoolizados. Logo as poças surgirão. Enquanto isso, a morena pega a mangueira do galão de cerveja. Joga o álcool na cara da quase morena.
No meio da platéia que se formou em volta das duas um outro alguém grita:
- Para de desperdiçar a cerveja. Joga no corpo dela, vai!
A morena parece obedecer, encharcando o corpo da quase morena, que solta gritinhos de êxtase, indo pra trás. Na real, ela geme é de raiva, pulsante. Já estava de biquini escuro, na praia de grama com mar de cerveja. A quase morena luta contra o fluxo de cerveja colado em seu abdômen bonitinho.
Fui pro banheiro do térreo, do lado do lavabo. Um casal ensaiava uma trepada em cima da máquina de lavar. Original, pra dois homens. Lavando roupa suja em público.
- Que merda tá acontecendo aqui? - alguém grita do gramado antes que fechasse a porta do banheiro atrás de mim. Só pode ser o dono da festa, o tal do Fernando, amigo do meu amigo. Aquele que tava do meu lado, que convidou 50 pessoas no Facebook. Quarenta e tantas mulheres...mentira. Umas dez, talvez, foram convidadas por ele. Nenhuma brigava.
Cansei de mijar. Dei a descarga e pulei pra lavar a mão na pia atrás de mim, pulo 180 graus. "Pra que pular?" me perguntei depois que sai do banheiro. Se controla, animal.
Procurei álcool na geladeira da cozinha, pertinho ali do lavabo. Alguém fazia omelete, jogando Dreher na panela. O coração agradece, os médicos desrecomendam, ovo dá câncer. Bem, a vida dá câncer, qual o problema?
Na geladeira, Keep Cooler verde, abacaxi? Maça verde? O omeletista me deu um abraço, ofereceu um pedaço do omelete ainda em processo. Não tava afim. Bukowski só come depois de vomitar. Vou seguir o mestre. Como é mesmo aquela frase dele? Ah, procurem no Facebook.
- Tirem a roupa ou vão embora! - grita mais um machão lá do gramado. Não pode ser o dono da festa. Hum, e se for...
Chego no gramado pra ver a quase morena recebendo uma nota de 100 reais, sorridente, toda estrupiada, cabelo bagunçado, molhadinha, cervejadinha. A morena rola no gramado, rindo. Um homenzinho pula em cima dela. Outro o segue. E o terceiro grita:
- MONTINHO!
Chego perto do meu amigo, parado no mesmo lugar de antes.
- Vou arranjar uma briga. - comenta.
- Cadê o dono da festa? - me pergunto.
Podia ter um garçom aqui né? Um barman, daqueles classudos, anos 50, que até o Poderoso Chefão gostaria, servindo a bebida pra galera super transada e diferenciada. Mas tá lá, o último galão de cerveja a 30 passos de mim, defendido por um montinho.
- Cadê o Fernando, cacete?! - grito.
Pois é, perdi o controle. Simples assim.
domingo, 4 de março de 2012
Campos
Miriam passa as mãos em seu cabelo e relaxa. Espreguiça seus braços, joga-os pra cima, estrala. Vira de lado, dobra as pernas de forma patética, como se fosse chutar algo. Vista de cima, parece um losango desajeitado. O pijama insiste em se dobrar, quer sair do corpo que vela. Ela sonha.
Campos verdes passam rapidamente, capim. A mão direita faz ondas, brigando com o vento que detona o movimento. Ela quer cortar os dedos com o capim. Quer sangrar do lado de fora, pular do carro, voar.
O pai dirige focado na estrada. Sorri, porém não desvia o olhar. Segue reto pela BR ensolarada. Céu vermelho, nuvens aglomeradas em espaços esparsos, cheias. A mãe e a irmã sentam no banco traseiro. Uma olha para a esquerda, a outra mira a direita.
A mãe, sentada atrás da cadeira do motorista, acaricia os ombros do pai e começa a chorar. A irmã dá um tapinha na cabeça de Miriam. O pai vira o rosto, encara a filha, destrava as portas e com os olhos cheios de lágrimas dá uma piscada e diz:
- Boa sorte no mundo, filha.
Miriam abre a porta do carro em movimento e se joga em direção ao capim. E acorda sorrindo pra mim.
domingo, 16 de outubro de 2011
Mais uma dose
A novidade recai sobre seus ombros, Mario. A segurança que a rotina lhe proporcionou desenha destinos incertos, você saiu de casa. É o que ele imagina. Anda calmo pelas ruas que conhece, irritado pelo caminho percorrido todo santo dia. Todo dia demoníaco. Pega a bolsa carregada de canetas, dois cadernos, Passatempos, papel toalha.
Os olhos tremem, mas ele não sabe o porquê. Insiste num movimento que ele mesmo não sabe exatamente qual, não quer aquele cimento a sua frente, mas não quer a alternativa de pegar o condução lotada de manhã. O suor, o mal humor, a insensibilidade forçada pelo ar que os rodeia.
Ele gosta de observar as pessoas pra não pensar sobre si mesmo. Confere seus sentimentos sem sucesso, a face é única para todos, plácida e gélida. Mario projeta seus medos sob seus pés, já que assim pode pisar em seus temores a cada passo que dá. Tarefa ingrata. Improdutiva. Os temores se renovam, em ciclos, margeiam sua existência, disfarçados. O ano passou.
Ele acredita na necessidade de resoluções. Mas sabemos que todo problema traz consigo desenvolvimentos longínquos, nós precisamos dos problemas, os problemas nos querem. Crescemos, amadurecemos, a criança egoísta hiberna, o urso adulto acorda. Presentes de Natal.
Mario encara a árvore de Natal. Nunca pensou em como seria seu Natal sem a presença dos avós, figuras aglutinadoras, a família reunida. Árvore enfeitada, cheia de adereços, cobrindo sua nudez, sua natureza verde e simplesmente existente. Assim como ele, decorado pelo comportamento insensível, estático. O tio cutuca seu ombro:
- Sua avó que decorou, lindo né?
- É...demais.
O tio sai, vai pegar mais uma cerveja.
Mario encara a árvore de Natal mais uma vez. Encara o chão, os olhos tremem. Ele corre para o bar. Duas horas depois:
- Mais uma dose de vodka, garçom.
sábado, 13 de agosto de 2011
Rotina
Ao redor da círculo que Adelmo calculava pra si, o ponto que fecha a forma hesitava.
- Não acredito no desespero que todos aparentam ao pensar na rotina. Ela não pode ser tão agressiva assim.
Você observa os olhos dela girando, piscando, tremendo. Eu sinto aquilo que você indica. Há uma exatidão nos seus desejos que eu não consigo conceber. Olho pra cima, desejo uma explicação racional, porém só o destino pode explicar. Sem pensar, acredito naquilo que é perecível: a vida. Caminho sobre seus passos deixados na praia, uma posição a seguir. Uma caminho pré-determinado a justificar minha existência, nossa existência. Nós queremos mais, sem saber exatamente o quê. Eu não quero você, mas te desejo. Você me quer, cogita em me desejar. A nossa rotina parece diferente daquela que planejamos. Com filhos andando pelo jardim cheio de rosas. O leito matutino, o cereal, a televisão, o jornal, o beijo morno. A viagem de carro. O olhar rente. A determinação frágil, o sonho perpétuo, a morte indelével. Tudo vale a pena quando não aconteceu por pena.
Eu queria cebolinha, você rosas. O sustento, a beleza. O que nos sustenta em pé agora? Nossa convivência opera de formas diversas.
- Vamos pro parque hoje. Passear, que tal? - sugere sua voz mansa, porém determinada.
Karen, eu não quero que você roube minha atenção. Afinal, o que mais pesa é o seu destino. Caminha almejando o destaque, o ser mais comunicativo do universo virtual, a formadora de opiniões, seu tumblr, seu blog sagaz, sua estupidez disfarçada de inteligência a frente de seu tempo, engraçada frente aos acontecimentos do tempo. Suas intenções revelam o vazio de suas ações. Isso não vale nada, amor. E eu não quero sua opinião. Muito menos a minha. Que tal nos anularmos?
Sua pressão, meu vômito. Observo o caminho que faço todos os dias, insensível, a rotina perdeu a graça. Quero mais, mas talvez não queira você. Muito menos seus filhos. O destino devia explodir.
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